mente insana em corpo são ou Evangelho de Lucas

Lucas, Pedro (Dezembro, 2006). “Videojogos: as desculpas que queríamos”. Men’s Health, 69. p.52-54.

Nunca simpatizei muito com as revistas “femininas” ou “masculinas”. Confesso que me irritam as revistas que utilizam o género como elemento identificador, caindo inevitavelmente nos estereótipos, nas generalizações parvas, e que mais não conseguem do que criar títulos do tipo “Como conseguir mais sexo no verão” ou “Orgasmos múltiplos: como ter mais prazer”… A isto adicionem capas com raparigas seminuas de ar muito “inteligente” ou com “celebridades da aldeia de baixo” ao lado de letras a vermelho que asseguram que eles estão divorciados… Enfim, percebem o género.

Cá em casa, onde estou a passar o Natal, alguém (ainda não descobri quem…) comprou a última Men’s Health. Como o tema está na moda, lá houve um “jornalista” (não sei se… em todo o caso, é o chefe da redacção da publicação) que dedicou o seu tempo (ou não… pela qualidade do conteúdo não deve ter dedicado muito…) a opinar sobre videojogos… Um desastre… Adiante.

Vejamos então como abre o artigo:

“Começamos por referir que, apesar de não existirem teorias fundamentadas sobre as consequências dos videojogos, pelo que investigámos, acreditamos que estes benefícios estão directamente relacionados com o tipo de jogos que se escolhem para passar o tempo. Os de elevada violência não fazem parte desta etiqueta! Portanto, o efeito dos videojogos depende sempre do que escolhemos, de como os usamos e durante quanto tempo.”

Tanto para dizer. Reparem como o autor transforma a questão num acto de fé (influências do seu nome?). Perante o problema epistemológico (segundo ele, não existem “teorias fundamentadas” sobre o tópico… ou não investigou ou não sabe o que são “teorias” ou não sabe o que significa “fundamentadas”, provavelmente todas juntas…), Lucas resolve com a fé (acredita). É uma solução muito comum, quando a ciência não resolve, recorre-se ao sobrenatural e à religião. Não obstante, aquilo em que Lucas acredita é um perfeito disparate. Enfim, cada um acredita naquilo que quer. Infelizmente, bastava-lhe ter lido um qualquer resumo do “Tudo o que é mau faz bem” do Steven Johnson, editado este ano e disponível em qualquer livraria, para perceber a tontice da sua afirmação.Convenhamos que, no mínimo, a investigação foi pobrezinha…

No final do parágrafo, reparem como Lucas, certamente cedendo à tentação de evangelista, termina com um novo dogma, uma nova verdade da sua fé inquebrantável. Não há teoria, não há ciência sobre o assunto mas Lucas investigou, acredita e postula: “Portanto, o efeito dos videojogos depende sempre do que escolhemos, de como os usamos e durante quanto tempo.” Amén.

E pronto, está estabelecida a legitimidade do autor para dizer tudo o que lhe der na real gana…

Não vou dissecar as sugestões de jogos de Lucas, são todas muito politicamente correctas e pouco interessantes. No entanto, há uma que sobressai das demais. É que Lucas sugere o FIFA Manager 07 para não ganhar barriga… Nem sei que diga… certamente um incorrigível treinador de bancada, Lucas não resiste a dar o ar da sua graça de macho e trazer a bola para o texto. Não querem ganhar barriga? Então sentem-se diante do televisor durante horas a comprar e vender jogadores, a definir tácticas de jogo, etc. Não se esqueçam dos aperitivos e da cerveja fresquinha…

Continuando a ler o Evangelho de Lucas sobre videojogos, chegamos à parte da educação, onde o autor nos oferece este sábio parágrafo:

“Existem estudos que provam que os videojogos ajudam a fomentar destrezas e habilidades de aprendizagem, particularmente nas crianças. Se, mesmo assim, acha que os seus filhos passam horas a mais a jogar, limite-lhes a 60 minutos por dia, ainda que isso dependa da idade. E porque não jogar com eles? Estará a educar, ao mesmo tempo que se divertem, se for transcrevendo o que se passa no jogo para exemplos da vida real. É assim que a relação pai-filho faz mais sentido!”

E pronto, se Lucas diz que “existem estudos que provam” então é porque é verdade… Para quê identificar? Para quê a referência completa dos estudos? Os leitores devem ser tão ignorantes e parvos que não compreenderiam os estudos, não tem interesse. Lucas certamente leu e agora sintetiza tudo num conjunto de lugares comuns e banalidades sem sentido. Os leitores só têm de acreditar. Sempre a fé… Costela de evangelista… Por exemplo, a recomendação para limitar o tempo de jogo das crianças a 60 minutos por dia “ainda que isso dependa da idade”. Não faço a mais pequena ideia de onde vem esse número e muito menos de como varia com a idade e quais as idades a que se refere… mais isto faz algum sentido???

Por fim, a maravilha da “pedagogia de Lucas”: Se eu jogar com o meu filho, estarei a educá-lo enquanto nos divertimos se eu “transcrever” (sic) o que passa no jogo para exemplos da vida real… ROFL Desculpe mas ainda não consegui parar de rir…LOL

“Videojogos: as desculpas que queríamos”? Nãaa… fica tu com essa desculpas Lucas… Eu não preciso de desculpas (vantagens de ser ateu, graças a Deus) e, se precisasse, pela amostra do Evangelho, provavelmente encontrava as minhas num qualquer escrito apócrifo…

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