Eles são os “máióres” e “bué portugueses”

A RTP colocou o país em alvoroço com um concurso interessante (formato algo limitado…) sobre as personalidades portuguesas, os “Grandes Portugueses”. Segundo o texto da página oficial, o concurso começa com o ” nomear a sua figura histórica preferida”, depois avança para o “eleger – através do seu voto – a personalidade mais marcante da História de Portugal” e termina no “decidir quem é a figura pública (em todas as áreas, viva ou morta) que, na sua opinião, merece ser considerada o “maior” português de todos os tempos.”

Bom, a incoerência começa com o cocktail de representações: figura histórica preferida e personalidade mais marcante da História são conceitos muito diferentes… E nem sei bem o que dizer do “maior de todos os tempos”… Enfim…

Vou também saltar por cima da lista dos “100 maiores portugueses” e da presença nessa lista de individualidades como Eusébio (15º), Pinto da Costa (17º), José Mourinho (20º), Luis Figo (30º), Vítor Baía (66º), Cristiano Ronaldo (69º), Herman José (70º), Ricardo Araújo Pereira (76º) ou Hélio Pestana (79º)… todos estes são “maiores”do que António Lobo Antunes (82º), Gil Vicente, Vieira da Silva, Miguel Torga, Fernão Mendes Pinto, Damião de Góis ou Almeida Garrett, por exemplo 😀 e ainda dizem que o público português não tem sentido de humor rofl Agostinho da Silva e Eça de Queirós aparecem depois de Pinto da Costa e Mourinho ah ah ah, Padre António Vieira, Afonso de Alburquerque e Saramago depois de Figo… uma delíci, um repasto axiológico português!

Vejamos alguns aspectos curiosos relativamente aos 10 finalistas:

– todos homens

– todos mortos

– 4 dos 10 morreram no século XX mas só um nasceu no século XX (Álvaro Cunhal – 1913)

Parace-me pacífico que a esmagadora maioria dos que votaram não conheceram pessoalmente nenhum dos 10, nem investigaram, construíram a sua imagem de forma mediada através de meios como a televisão, manuais de história, jornais, opiniões/conversas com terceiros, etc… Sendo assim, parece-me que a presença de Salazar como candidato a “maior português de todos os tempos” levanta algumas questões interessantes.

Se a liberdade de expressão legitima totalmente a escolha e a sua presença nesta lista, não me passa pela cabeça juntar-me aos novos  arautos da censura (não defendo a democracia proibindo a expressão dos que não concordam comigo…), não escondo a curiosidade em ver quem irá fazer a “defesa do [seu] valor e qualidades” e quais os argumentos.

Se Salazar vencer, não devemos só perguntar se os portugueses sabem “ler” ou se perceberam o objectivo do programa e da expressão “maior português de todos os tempos”, devemos reflectir com muita ponderação sobre a ideia que a sociedade portuguesa construiu do Salazar e o processo de construção…

Para mim, se Salazar entrasse num videojogo, teria de ser sempre um “boss” daqueles que tem de ser eliminado para passarmos de nível, para evoluirmos. O personagem principal aquele com que nos identificaríamos, o “herói”, seria Salgueiro Maia. Ao que parece, na madrugada do 25 de Abril, quando Salgueiro Maia apresentou a situação aos seus soldados, afirmou algo como “Há três tipos de estados: o estado capitalista, o estado comunista e o estado a que isto chegou” (não sei se as palavras são exactas mas o sentido é este). Pelos vistos, ainda falta um bocado para isto chegar a algum lado…

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One Response to Eles são os “máióres” e “bué portugueses”

  1. JOão Pedro Santos says:

    Para ser o maior português de todos os tempos é necessário ter feito algo de muito importante por PORTUGAL. Há uma 1ª. classe de personalidades que foram os protagonistas de momentos cruciais da independência da Nação. Depois há os outros também importantes mas não imprescindíveis e que pertencem à 2ª. classe. E depois o cidadão anónimo que também ajuda mas não é vital. Por fim os que não interessam, espanholados, afrancesados, etc.
    1ª. Classe e por ordem Afonso Henriques o fundador e batalhador. D. João I e Nuno Álvares Pereira que tiveram de defender o pai da cobiça dos Castelhanos e dos espanholados. D. João IV, que teve de enfrentar de novo a independência e todos os vencedores das batalhas de Montijo, Ameixial, Linhas de Elvas, Castelo Rodrigo, montes claros. O infante D. Henrique que iniciou a época do único periodo de grandeza de Portugal. D. Manuel I que mandou que se efectivasse a descoberta do Caminho para a Índia a posse das Terras do Brasil que se tornou um imenso território. Na 2ª. classe vêm conforme os gostos, militartes, Poetas, escritores, cientistas etc. Na 3ª. classe o cidadão cumpridor amigo do seu país que ajudou na construção. Finalmente os inimigos que as mães deveriam ter abortado se soubessem o que eles seriam.

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