burlas, vigaristas, cheaters – todos em busca de privilégios

Nos FPSs, o debate sobre os cheats é daqueles temas que está sempre presente, nunca acaba. De vez em quando, lá surge mais uma iniciativa contra os cheaters, mais uma discussão sobre a “honestidade”, etc. Pela minha parte, estou certo que o comportamento desviante faz parte das regras e nunca irá desaparecer (o que não significa que não se possa tomar medidas para minimizar o seu impacto). Relativamente aos MMORPG, existem algumas semelhanças mas como o jogo funciona de forma diferente, há necessariamente diferenças importantes…

Algumas definições de partida:

Cheat – programa/código utilizado para fazer com que o jogo funcione de um modo ilegal. Ou seja, não compatível – subverte/modifica – com as regras de funcionamento concebidas pelos autores do jogo. É utilizado em todos os tipos de jogos, aplica-se a todos os géneros e suportes, é utilizado como um termo bastante abrangente (no seu sentido mais lato, inclui toda e qualquer subversão das regras ou aproveitamento, incluindo exploit, macro ou glitch). É um programa, funciona paralelamente ao jogo, que permite ao jogador fazer algo que não está de acordo com as regras, obter um privilégio ilegal. Exemplo: programa que “aponta e dispara” sozinho,

Glitch – termo muito comum no universo dos FPS, é utilizado para designar um bug ou falha no funcionamento do jogo que pode ser utilizado para obter alguma vantagem sobre os outros jogadores. Por exemplo, uma parede que pode ser atravessada num sítio específico, um tecto de uma casa que constitui uma barreira invisível,etc. Geralmente, é utilizado para designar uma erro no próprio mundo 3d (i.e. o level designer esqueceu-se de “tapar” uma das partes da parede ou ficou desalinhada, deixou um objecto invisível num tecto, etc. Pode ser considerado um tipo de exploit.

Exploit – equivalente ao glitch mas, sobretudo, utilizado no universo dos MMORPG, é semelhante ao glitch mas não se aplica só aos bugs no modelo 3d do mundo, aplica-se também à mecânica (i.e. saber que se o meu personagem levar umas calças de tipo X combinadas com um casaco Y não perde energia nenhuma porque exuste um erro nas regras,etc.). É utilizado como um termo abrangente. Diferença para o cheat é que não é necessário um programa “externo” (“third-party”), o efeito/consequência pode ser exactamente o mesmo.

Macro – programação que associa um conjunto de acções em sequência a uma tecla ou comando (ou conjunto de teclas). O objectivo é facilitar a execução de determinadas acções ou tarefas, quando o comando é executado ou a tecla pressionada um determinado conjunto de acções é executado na ordem predefinida.

Ou seja: usar cheats e macros implica utilizar algo que não vem no jogo original; cheat implica que as regras do jogo são subvertidas ou modificadas em privilégio do utilizador da cheat; exploit e glitch são aproveitamentos de erros ou falhas no jogo. Utilizar uma macro para tirar partido de um exploit ou de um glitch é claramente alterar as regras do jogo em privilégio do utilizador da macro, não será “tecnicamente” uma cheat porque a macro não é uma aplicação, um executável.

E os scams? Scams são esquemas fraudulentos, vigarizar um negócio. Apesar de sob o ponto de vista técnico não terem qualquer comparação com os exemplos acima identificados, é um comportamento “ilegal” (pior?) do ponto de vista social. Esta é uma diferença dos MMORPG, a dimensão social e de vida em comunidade deste tipo de jogo (todos os online?) é tão intensa que as regras de sociabilidade e morais incluem-se nas regras de jogar. Por outras palavras, utilizam-se exploits e cheats para fazer algo que a mecânica do jogo não permite (apesar de a comunidade condenar moralmente e socialmente a sua utilização), alterar as regras do jogo. O scam é permitido pelo jogo mas é um comportamento incorrecto, não está de acordo com as regras de jogar.

No GW, os scams mais comuns dividem-se em 2 grupos: nas runs/taxis/ferry (receber adiantado e fugir sem fazer a run, como aconteceu ao amigo Fábio; fazer o serviço de taxi/ferry e não ser pago pelo “cliente”, como já me aconteceu) e nas vendas directas (pagar menos do que o combinado, contando que o comprador não verifica o valor final; alterar o item na venda contando que o comprador não verifica antes de pagar; etc.).

Existem regras que são impostas pelo próprio motor do jogo (em todos os jogos), os jogos com interacção social (jogos online) necessitam de criar ou importar regras de sociabilidade (i.e. não insultar, etc.), existem regras sociais criadas por necessidades impostas pela mecânica do jogo (i.e. kickar quem está away) – mais nos FPS, julgo – e regras sociais impostas porque é uma comunidade a tentar viver (i.e. não vigarizar o próximo, etc.).

O que é que todos estes “personagens” têm em comum? A busca do privilégio, quererem obter alguma supremacia relativamente aos outros jogadores. Num certo sentido, estes “jogadores ilegais” encerram uma certa contradição: por um lado, querem o reconhecimento social da sua supremacia (querem ser ricos ou levar de vencida os outros jogadores); por outro, utilizam um quadro próprio (não é partilhado pelo grupo em que pretendem ser reconhecidos) de regras. Não sei bem porquê mas associo aos “velhos aristocratas” (alguns nunca o foram… nem são muito velhos) já sem dinheiro e falidos, que em casa comem pão e água, mas na rua ostentam sinais exteriores de riqueza.

Talvez mais importante do que todos estes comportamentos é o reconhecimento dos MMORPG como verdadeiros laboratórios sociais, espaços que, por serem fundamentalmente sociais, também são de experimentação e aprendizagem de valores, ideias e ideais. Em Tyria, não interessa a religião que seguimos ou a forma de vestir. Espaços com um quadro axiológico contruído em grupo, dinâmico, que visa fundamentalmente garantir a convivência saudável da comunidade ou, em última análise, a sua sobrevivência.Talvez se pudesse importar para a vida real alguma coisa, talvez fosse útil perceber quais são a regras mínimas necessárias à nossa vida em comunidade e, finalmente, deitar fora os preconceitos…

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2 Responses to burlas, vigaristas, cheaters – todos em busca de privilégios

  1. Fabio Serod Pt says:

    Felizmente no guild wars existe as account marks (acho que e assim que se chamam) que caso o jogador faça algo de improprio e for apanhado nao pode jogar durante 1 ou 2 semanas, em casos extremos as contas sao mesmo banidas, por exemplo quando se usa bots e se e apanhado
    Contudo tudo isto aponta para o mesmo para serem punidos tem de ser apanhados, em cidades desertas do GW e onde se encontram mais bots,os bots sao programas que fazem com que a personagem faça a mesma acçao vezes sem conta, essas acçoes sao habitualmente farming, o que vai trazer uma rapida riqueza ao jogador que o fizer,ja ha umas modificaçoes no jogo para controlar os bots mas nunca sera o suficiente para os parar…
    Quanto ao scam infelizmente nao se pode punir estes jogadores que o praticam, a culpa e nossa de termos sido levados na conversa deles, eles nao fizeram nada contra as regras do jogo, apenas contra as regras de etica mas contra isso nao podemos fazer nada
    Abraço

  2. nafergo says:

    por acaso devia ter mencionado os bots, estão a meio caminho entre os macros e os cheats… 😦 vou escrever e juntar 🙂 thx fabio
    n concordo que não se possa fazer nada (pode-se fazer um report à Arena.net e todos os reposts são investigados) e as regras do GW n permitem o scam!

    nas in-game infractions existe “Taking advantage of another player (“scamming”) in order to take his/her items or account”
    o interessante, para mim, é as regras do jogo deixarem de ser só aquilo que o jogo permite ou não fazer mas tb incluem aquilo que deve/ou não ser feito… Ou seja, são incluídas nas regras aspectos que o jogo deixa fazer mas são considerado inapropriado (insultar, scams, etc.), regras de sociabilidade…

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